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Como o consumo de carne de cachorro explica a atual Coreia



Como é que você descobriu esse restaurante? Você sabe o que estou servindo, certo?". Foi assim que fomos recebidos no Telha Verde, em Gangneung, Coreia do Sul. Na placa, nenhuma menção ao que comeríamos, apenas propagandas sobre uma tal sopa nutritiva e afrodisíaca. Lá dentro, casa completamente vazia, uma decoração que nos levou de volta aos anos de 1980. O menu é enxuto. E se por essas linhas você já se pergunta do que estamos falando, sim, é sobre carne de cachorro. O assunto causa curiosidade no Brasil. E a pergunta é sempre a mesma. Afinal de contas, os coreanos comem ou não carne de cachorro? A resposta é sim. Eles comem. Porém, muito menos do que imaginamos. E o que o mundo acha bizarro e cruel, acredite, explica muito sobre a atual Coreia do Sul, país que recebe a Olimpíada de Inverno de PyeongChang e protestos contra o consumo, como neste domingo, na PyeongChang Olympic Plaza.



Protesto neste domingo contra o consumo de carne de cachorro (Foto: Divulgação)


Alimentar-se de cachorro, ou "Kaegogi" é uma tradição milenar na Coreia, da época dos imperadores. Dizia-se que a carne era afrodisíaca e que ajudava a suportar o calor dos verões. Nos últimos séculos, porém, também esteve ligada a pobreza do país, hoje entre as 11 maiores economias do mundo. Ela era a única proteína possível. Bem mais barata que os porcos. Mais fácil de se conseguir que os frangos. Com o enriquecimento do país, as possibilidades nutricionais aumentaram. Passou-se a importar carne vermelha, entre outros alimentos. Com mais opções à mesa, a carne de cachorro deixou de ser uma necessidade e transformou-se em uma iguaria tida como bizarra para muitos. No dia 16, o país comemorou o seu Ano Novo, e entramos justamente no ano do cachorro.



"Apesar da campanha e pressão do governo para diminuir as vendas durante a Olimpíada, os restaurantes estão lutando para manter a tradição", disse um dono de estabelecimento em Gangneung à NBC





Sul-coreanos passaram a ter cachorros como animais de estimação (Foto: Thierry Gozzer)



Quem tem mais dinheiro, via de regra, come melhor. Em 1988, quando sediou a Olimpíada de Verão, a renda per capita do sul-coreano ficava em US$ 4.800 (R$14.400). Em 2016, veja, saltou para US$ 27.500 (R$ 82.000). Se não tem petróleo, gás ou clima para se produzir bem, eles vendem aos brasileiros carros e tecnologia enquanto compram soja, minério de ferro e frango. Assim, nas relações comerciais entre Brasil e Coreia do Sul, o déficit brasileiro chegou recentemente a US$ 8,52 bilhões (R$ 25,56 bilhões).


O aumento das possibilidades proteicas, inclusive, fez com que a Coreia do Sul desse um salto de estatura, figurando entre os países de maior desenvolvimento neste quesito. A alimentação responde de 20% a 40% no que tange ao crescimento do corpo humano. Na Ásia, chega a 35%. Em 1965, quase 12 anos após fim da Guerra da Coreia, a mulher coreana media 1,56m, contra 1,61m em 2013, cinco centímetros a mais. Os homens saltaram de 1,63m para 1,73m, dez centímetros a mais, e aumentaram seu peso de 54,3kg para 69,9kg. Os dados são do Instituto de Seul. Outro exemplo: a seleção masculina de vôlei em Seul 1988 tinha média de 1,90m, contra 1,92m do atual.


Em 100g de carne de cachorro há



262kcal (praticamente igual ao frango ou porco)
19g de proteína (o porco tem 28g)
20g de gordura de baixo colesterol (o porco tem 16g, sendo 4,32g saturadas)
Ajuda a previnir a pressão alta e a arteriosclerose





Restaurante Telha Verde estava vazio em Gangneung (Foto: Thierry Gozzer)




Governo fechou principal "açougue"




Há 50 anos, era praticamente impossível encontrar sul-coreanos com cachorros de estimação e o animal sempre foi visto como instrumento de trabalho. Petshops? Há cinco anos poucos existiam. Os restaurantes especializados ficavam em locais de destaque. Hoje, estão escondidos, nos becos. Em 1986, por medo da reação da mídia internacional durante os Jogos asiáticos de 1986 e a Olimpíada de 1988 , o governo baniu a venda de carne de cachorro, a grande maioria da raça local "Nureongi". Para escapar de proibição, os restaurantes passaram a colocar em suas placas a tal sopa nutritiva. Em 2005, só Seul tinha 528 locais para se comer. Em 2014, esse número caiu para 329.



Fachada do restaurante em Gangneung: "sopa nutritiva" (Foto: Thierry Gozzer)


Em 2017, foi fechado o maior mercado de venda de carne de cachorro, novamente para evitar constrangimento com os estrangeiros que viriam para a Olimpíada de Inverno, o mesmo foi feito na Copa do Mundo de 2002. Mas há resistência. Coreanos já fizeram protesto pedindo a regulamentação do abate. Outros tantos pedem a proibição total. Ainda não é crime comer o animal no país. Tanto é que encontramos alguns restaurantes abertos a poucos quilômetros do Parque Olímpico de Gangneung. O preço? Em média uma porção individual sai por R$ 35.



A procura, contudo, é pequena. O tal restaurante da Telha Verde estava vazio, tudo bem, era o fim do feriadão de Ano Novo, e dados sul-coreanos de 2015 mostram que um cidadão do país comeria apenas um cão inteiro em 81 anos de vida, enquanto ingeriria 21kg de porco, 11kg de frango e 10kg de carne vermelha por ano. Outra informação: só 17% dos coreanos entre 20 e 30 anos já comeram cachorro, contra 39% das pesoas entre 50 e 60 anos.



"Tenho vergonha dos coreanos que comem carne de cachorro. Existem sistemas para se reduzir o sofrimento da vacas e porcos, mas os cachorros não. Acho cruel", diz Yeonjae, de 23 anos





Homem passeia com cachorro em feira local (Foto: Thierry Gozzer)


O fenômeno é explicado também pela "ocidentalização" da Coreia do Sul. Parceiro comercial dos Estados Unidos, o país é cada vez mais ocidental, até mesmo na religião. Os cristãos já são maiores que os budistas ou confucionistas. Essa mudança de paradigma apresenta aos estrangeiros em PyeongChang um país que se geneticamente ainda se mistura pouco, é cada vez mais globalizado em cultura, apesar de poucos reclamarem disso.



"Cada um tem suas preferências e a escolha é pessoal. Cada país tem a sua culinária. Não acho que seja uma vergonha. Alguns não comem vaca, outros países comem de tudo", garante Park Su-hyeon, de 46 anos





Neste domingo, houve protesto na PyeongChang, Olympic Plaza, do lado do estádio olímpico. Uma ONG levou oito estátuas de cachorros, cada uma pintada de uma cor, para chamar a atenção sobre o tema, pedindo a extinção das fazendas de criação de cachorros para o consumo humano. De acordo com o protesto, a indústria sul-coreana é a única no mundo, tem cerca de três mil fazendas e quase um milhão de cachorros em cativeiro.




Atletas olímpicos salvam cães




A questão chegou aos atletas olímpicos em PyeongChang. Meagan Duhamel é canadense e foi ouro por equipes e bronze nas duplas da patinação artística. Antes de vir para a Olimpíada, a patinadora, que é vegana, adotou dois cães sul-coreanos, evitando com que eles fossem para a fila do abate. Organizações Não Governamentais atuam na Coreia salvando animais e buscando um novo lar. Não foi apenas ela quem fez isso. O esquiador americano Gus Kenworthy tomou a mesma medida.



"Obrigado a todos que estão compartilhando o salvamento do Mootae da Coreia do Sul", disse Meagan em post onde mostrou os cachorros a salvo no Canadá


Como o consumo de carne de cachorro explica a atual Coreia Como o consumo de carne de cachorro explica a atual Coreia Reviewed by Voz de Rondônia on fevereiro 20, 2018 Rating: 5

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