Porto Velho, RO - A Assembleia Geral das Nações Unidas aprovou nesta quarta-feira, 25, uma resolução que classifica o tráfico transatlântico de africanos escravizados como “o crime mais grave contra a Humanidade”. O texto, liderado por Gana, obteve 123 votos favoráveis, três contrários — Estados Unidos, Israel e Argentina — e 52 abstenções, entre elas as de Reino Unido e dos países da União Europeia.
O documento reconhece a escravização racializada de africanos como um fenômeno de escala, brutalidade e natureza sistemáticas sem precedentes, com consequências que ainda se manifestam na atualidade por meio da discriminação racial e do neocolonialismo. A resolução também convoca as nações historicamente envolvidas no comércio de escravizados a se comprometerem com medidas de justiça restaurativa.
Gana lidera, África se mobiliza
O presidente ganense John Mahama esteve presente na sede da ONU, em Nova York, para apoiar a votação. Gana ocupa posição de destaque na iniciativa por abrigar um dos maiores conjuntos de fortes e castelos ligados ao tráfico negreiro, de onde partiram inúmeros navios durante o comércio transatlântico.
O ministro das Relações Exteriores de Gana, Samuel Okudzeto Ablakwa, foi direto ao ponto na véspera da votação: “Os responsáveis pelo tráfico transatlântico de escravos são conhecidos: os europeus e os Estados Unidos. Esperamos que ofereçam desculpas formais a África”.
A aprovação da resolução se insere em um movimento mais amplo do continente africano. A União Africana declarou o período de 2026 a 2035 como a Década de Ação sobre Reparações. Desde 2019, Gana também mantém uma iniciativa que convida pessoas de ascendência africana a buscarem cidadania e residência no país, com o objetivo de reconectar a diáspora às suas origens.
O secretário-geral da ONU, António Guterres, discursou na ocasião: “Foi um crime contra a humanidade que atacou o próprio núcleo da condição humana, destruiu famílias e devastou comunidades”. Para Guterres, é preciso “trabalhar pela verdade, justiça e reparação”.
Divisões no voto refletem impasse político
A posição dos Estados Unidos foi a mais comentada. O embaixador americano Dan Negrea justificou o voto contrário afirmando que o país “não reconhece o direito legal a reparações por danos históricos que não eram ilegais sob o direito internacional na época em que ocorreram”. Negrea também caracterizou o texto como algo que coloca crimes “em competição” entre si.
O representante foi além e defendeu o presidente Donald Trump perante os países votantes: “O presidente Trump fez mais pelos afro-americanos do que qualquer outro presidente. Ele está trabalhando incansavelmente para atender às suas necessidades”.
A posição europeia seguiu linha semelhante, porém com argumentação distinta. O representante da França, Sylvain Fournel, manifestou preocupação com o “risco de colocar em competição tragédias históricas que não há razão para comparar, exceto ao custo da memória das vítimas”. Reino Unido e demais membros da UE preferiram a abstenção a qualquer dos extremos.
Para Okudzeto, o argumento não se sustenta: “O que dizemos é que, quando se analisam todas as atrocidades que ocorreram na história da humanidade, nenhuma foi tão sistemática e prolongada — mais de 300 anos — e com consequências persistentes”.
Fonte: O Antagonista



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