Porto Velho, RO - A mais de 5.100 metros de altitude nos Andes peruanos, onde o ar carrega apenas metade do oxigênio disponível ao nível do mar e as temperaturas despencam para –10°C à noite, cerca de 50 mil pessoas escolheram chamar de lar um lugar que a maioria das pessoas não conseguiria habitar por mais de algumas horas. La Rinconada é a cidade permanentemente habitada mais alta do planeta, e a promessa de ouro é o único argumento que explica por que alguém sobe até lá e decide ficar.
O que acontece com o corpo humano nessa altitude
Visitantes que sobem até La Rinconada enfrentam um conjunto brutal de sintomas: dor de cabeça intensa, tontura, náusea, falta de ar, cansaço extremo e taquicardia. Os níveis de oxigênio no sangue podem cair para entre 65% e 72%, muito abaixo do mínimo considerado seguro, exigindo uso constante de cilindros de oxigênio suplementar. Acima das nuvens, árvores e vegetação praticamente não sobrevivem.
Os moradores, no entanto, desenvolveram ao longo da vida uma adaptação fisiológica real: o corpo produz uma quantidade maior de glóbulos vermelhos para compensar a escassez de oxigênio. O problema é que esse mesmo mecanismo de sobrevivência torna o sangue mais espesso, aumentando o risco de bloqueios vasculares. A adaptação tem um preço, e ele aparece nas estatísticas: a expectativa média de vida em La Rinconada é de apenas 35 anos.
Falta severa de oxigênio reduz drasticamente expectativa média de vida localA cidade que cresceu sem estrutura nenhuma
La Rinconada cresceu de forma acelerada entre 2001 e 2012, acompanhando a alta global no preço do ouro. O resultado foi uma cidade de 50 mil habitantes erguida sem planejamento, sem coleta de lixo, sem hospital e quase sem infraestrutura básica. A água chega ao centro urbano por mangueiras improvisadas conectadas às geleiras. Toneladas de resíduos se acumulam por quilômetros. Esgoto corre a céu aberto.
As condições internas das moradias são igualmente precárias:
O sistema de trabalho que depende da sorte
As minas operam sob condições de risco extremo: túneis com gases tóxicos, explosões frequentes, risco constante de desabamento e envenenamento químico. Segundo os relatos, acidentes ocorrem cerca de 25 vezes mais do que em países desenvolvidos. E ainda assim, a fila de migrantes dispostos a entrar nas galerias não para de crescer.
O modelo de trabalho predominante é o sistema informal chamado Kachoreo: os mineiros trabalham o mês inteiro sem receber salário. Ao final, ganham apenas um dia para minerar por conta própria. O ouro encontrado nesse único dia representa todo o pagamento pelo mês de trabalho. Romero, mineiro com 12 anos de experiência em La Rinconada, já encontrou até 200 gramas de ouro de uma só vez e conhece casos de até 800 gramas. Mesmo assim, não deseja que os filhos sigam o mesmo caminho. Ele diz que sobreviver ali exige mais força mental do que física.
Confira o vídeo compartilhado pelo canal do YouTube Documentários Ruhi Çenet mostrando como é a rotina e a vida de quem mora na cidade mais alta e perigosa do mundo.
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Mulheres, crenças e o ouro que contamina tudo
As mulheres são proibidas de entrar nas minas por crenças tradicionais locais: a superstição diz que a montanha La Bella Durmiente teria ciúmes da presença feminina e poderia provocar desastres como terremotos. Por isso, muitas sobrevivem recolhendo restos de minério descartados pelos trabalhadores. Próximo às entradas dos túneis, altares decorados com flores secas, frutas e bebidas alcoólicas marcam a devoção a divindades ligadas à montanha, pedindo proteção e sorte.
O ouro que sai das minas chega misturado ao mercúrio e é separado por aquecimento com maçaricos, processo que libera gases tóxicos diretamente na atmosfera da cidade. O solo e a água estão contaminados por mercúrio e cianeto. Lagos de drenagem ácida se formam próximos às minas. Os mesmos rios usados para agricultura e criação de animais recebem os rejeitos químicos da extração. A cidade que promete ouro envenena sistematicamente quem nela vive.
Por que as pessoas continuam subindo até La Rinconada
À noite, trabalhadores retornam do interior das minas para ruas onde crianças ainda brincam, mercados permanecem abertos e pequenos escritórios protegidos por grades negociam ouro. A criminalidade é constante: roubos, esfaqueamentos e assaltos ligados ao metal que os mineiros carregam consigo, já que não existem bancos na cidade. Os visitantes precisam de escolta policial à paisana para circular com segurança.
La Rinconada é um retrato de como a esperança pode superar qualquer evidência contrária. Jovens que deveriam ir para a universidade entram diretamente nas minas. Famílias inteiras migram de outras regiões do Peru para uma cidade sem hospital, sem árvores e com expectativa de vida de 35 anos. O ouro não precisa ser encontrado para funcionar como promessa, e é essa promessa, e não o ouro em si, que mantém La Rinconada habitada, crescendo e sobrevivendo acima das nuvens.
Fonte: O Antagonista
La Rinconada é um retrato de como a esperança pode superar qualquer evidência contrária. Jovens que deveriam ir para a universidade entram diretamente nas minas. Famílias inteiras migram de outras regiões do Peru para uma cidade sem hospital, sem árvores e com expectativa de vida de 35 anos. O ouro não precisa ser encontrado para funcionar como promessa, e é essa promessa, e não o ouro em si, que mantém La Rinconada habitada, crescendo e sobrevivendo acima das nuvens.
Fonte: O Antagonista


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