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Na Mira do Povo

No coração de Porto Velho, a Amazônia continua viva em gotas, folhas e tradição

Porto Velho não se explica. Porto Velho se sente.

Quenede Michelangelo conta que aprendeu a ouvir, pesquisar e compreender a riqueza das plantas medicinais da região

Tem cheiro de casca recém-cortada, de óleo extraído da floresta, de folhas secando ao vento, de ervas que carregam histórias muito antes de existirem bulas ou laboratórios. No coração de Porto Velho, o Mercado Central continua sendo um dos lugares onde a Amazônia pulsa de forma mais genuína: viva, popular e cheia de conhecimento compartilhado entre quem vende e quem chega em busca de uma solução.

É ali que trabalha Quenede Michelangelo. Há oito anos, ele recebe moradores, turistas e curiosos em seu box de produtos naturais amazônicos. Mais do que vender, ele conta que aprendeu a ouvir, pesquisar e compreender a riqueza das plantas medicinais da região.

Esse aprendizado eu vou levar para a vida inteira", afirma com um sorriso discreto e uma piscadela de quem conhece, como poucos, os saberes da floresta.

Entre um atendimento e outro, ele explica as propriedades de cada produto e percebe que alguns nunca saem da lista dos campeões de procura.

Uma das estrelas da banca é a tradicional Gotas do Zeca, procurada por pessoas que buscam alívio para desconfortos digestivos, como má digestão e refluxo. Muitos clientes também recorrem ao produto depois daquele encontro com os amigos acompanhado de uma cervejinha. Segundo Quenede, há quem diga que as gotas ajudam a amenizar os efeitos da ressaca.

Foi só a conversa chegar aos produtos para "apimentar o romance" que Quenede caiu na gargalhada. Entre uma risada e outra, veio a resposta sem hesitar: "Para namorar, a campeã é a maca peruana", brinca. “E essa é do Peru mesmo, viu? Não é de outro país, não.”

Elisângela Marques disse que prefere os produtos naturais porque sente menos efeitos colaterais

A maca peruana é conhecida popularmente por ser utilizada como suplemento alimentar e por ser associada ao aumento da disposição física e da libido, embora seus efeitos possam variar de pessoa para pessoa e não substituam tratamentos médicos.

Quem frequenta o mercado também encontra na natureza uma alternativa complementar para os cuidados com a saúde.

Moradora do bairro Cidade do Lobo, Elisângela Marques saiu do box levando cardo-mariano. Segundo ela, prefere os produtos naturais porque sente menos efeitos colaterais.

"Já tive malária e hoje procuro cuidar melhor do meu fígado", conta.

O cardo-mariano é tradicionalmente utilizado para auxiliar na proteção das células do fígado e favorecer sua função, embora seu uso deva ser orientado por um profissional de saúde, especialmente em pessoas com doenças hepáticas.

Mas é impossível falar do Mercado Central sem mencionar os tesouros que carregam a assinatura da floresta amazônica.

O óleo de copaíba, um dos mais conhecidos da região, é tradicionalmente utilizado na medicina popular por suas propriedades anti-inflamatórias e cicatrizantes.

Uma das estrelas da banca é a tradicional Gotas do Zeca, procurada por pessoas que buscam alívio para desconfortos digestivos, como má digestão e refluxo

O sangue-de-dragão, resina extraída de árvores amazônicas, é empregado há gerações como auxiliar na cicatrização de pequenas lesões e na proteção da pele.

A andiroba, por sua vez, fornece um óleo famoso por aliviar dores musculares, auxiliar em massagens e também por seu uso como repelente natural.

Há ainda os tradicionais banhos de ervas, preparados que fazem parte da cultura popular amazônica. Entre eles estão o banho de sucuri e o banho de tartaruga, conhecidos nas crenças populares por serem utilizados em rituais ligados à atração, proteção, sorte e fortalecimento da autoestima. Sobre o banho de tartaruga, Quenede garante, em tom bem-humorado, que o produto deixa a pele "macia como seda".

E se engana quem pensa que apenas os porto-velhenses procuram esses produtos.

Segundo Quenede, clientes de vários estados brasileiros e até de outros países fazem questão de manter contato com o box para continuar comprando diretamente da capital rondoniense.

“A gente recebe gente de todo lugar. O pessoal leva nosso contato, pede para calcular o frete e a gente envia. O interessante é que muitos dizem que compram o mesmo produto em outros estados, mas não sentem o mesmo resultado. Eles falam que o daqui de Porto Velho, tem a magia da Amazônia.”

"Valorizar o Mercado Central é valorizar a nossa cultura, a nossa história e o povo de Porto Velho", afirma o prefeito Léo Moraes.

Maca peruana é conhecida por ser utilizada como suplemento alimentar

Talvez seja difícil explicar essa sensação.

Pode ser a origem das plantas. Pode ser o cuidado de quem conhece cada folha, cada casca e cada raiz. Ou talvez seja aquilo que nenhum laboratório consegue engarrafar: a identidade de um povo que aprendeu, ao longo dos séculos, a transformar a floresta em conhecimento.

No Mercado Central de Porto Velho, cada vidro tem uma história. Cada erva guarda uma memória. E cada atendimento reforça uma certeza que atravessa fronteiras:

Somos do Norte. Aqui, a floresta não é apenas paisagem. Ela é cultura, tradição, sustento e sabedoria. É a Amazônia cuidando de quem vive nela e encantando quem vem conhecê-la.

Dizem que quem nasce no Norte aprende cedo que a floresta fala. Fala no perfume da copaíba, na força da andiroba, na resina do sangue-de-dragão e nas histórias contadas em um balcão do Mercado Central. E quem chega de fora quase sempre leva um frasco na mochila. Mas o que realmente vai embora junto é um pouco da alma amazônica. Porque sentir Porto Velho é carregar a floresta no peito, mesmo quando o destino aponta para longe.

Texto: Iule Vargas/Fotos: Iule Vargas
Secretaria Municipal de Comunicação (Secom)

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